sábado, 25 de dezembro de 2010

Só de sacanagem- Elisa Lucinda

Meu coração está aos pulos!
Quantas vezes minha esperança será posta à prova?
Por quantas provas terá ela que passar?
Tudo isso que está aí no ar: malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu dinheiro, do nosso dinheiro que reservamos duramente pra educar os meninos mais pobres que nós, pra cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais.
Esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.
Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?
Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?
É certo que tempos difíceis existem pra aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.
Meu coração tá no escuro.
A luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam:
" - Não roubarás!"
" - Devolva o lápis do coleguinha!"
" - Esse apontador não é seu, minha filha!"
Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar. Até habeas-corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar, e sobre o qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará.
Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda eu vou ficar. Só de sacanagem!
Dirão:
“ - Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo o mundo rouba.”
E eu vou dizer:
”- Não importa! Será esse o meu carnaval. Vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos. Vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau.”
Dirão:
" - É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal”.
E eu direi:
” - Não admito! Minha esperança é imortal!”
E eu repito, ouviram?
IMORTAL!!!
Sei que não dá pra mudar o começo, mas, se a gente quiser, vai dar pra mudar o final.

domingo, 18 de julho de 2010

A Arte de ser PROFESSOR




A Arte de Ser Professor
Valquíria Telexa Rediss

O verdadeiro educador não é aquele que apenas compromete-se com a educação (ensino da gramática, por exemplo) mas sim, aquele que está inserido no processo de humanização,capacidade de auxiliar na construção da consciência e da cidadania de seus educandos. Sabemos o quanto é trabalhoso fazer com que tudo isso aconteça, afinal a carreira docente não é nada recompensadora em questão de termos salariais. Não há uma receita para ser um profissional de qualidade, contudo é fundamental que o professor tenha vocação para isto, pois educar é um ato de entrega.
É compreensível que a péssima situação na qual a educação brasileira se encontra, desanime qualquer educador ao se pensar em alguma solução para reverter este quadro, porém não se pode entender a profissão de educar como algo individualista e sim que, estamos lidando com inúmeras vidas que precisam absorver o que o educador tem a oferecer para tornarem- se melhores pensadores e críticos.
O aluno na maioria das vezes tem na figura do professor, alguém da família, que ele tem respeito, desta forma torna-se muito importante que o professor mantenha um relacionamento amigável com seu educando e não como um ser superior. Deve-se tomar cuidado, ao “corrigir” algo em uma sala de aula, porque muitas vezes pode se tornar traumatizante ao aluno, se o professor não for sensível para perceber como mostrar o caminho julgado “correto”.
Ser educador não é ser autoritário, é ter vontade de instruir, auxiliar ,ensinar a sua sabedoria, ter persistência, fazer da profissão algo extraordinário. Um bom educador não necessita fazer com que sua turma torne-se a elite intelectual da sociedade, mas deve lhe dar possibilidades para que consigam crescer, pensar, tentar modificar a sociedade em que vivem, tornarem-se pessoas mais humanas, mais cheias de vida,de amor.
Segundo Rubem Alves, em “Educação dos Sentidos”, cabe ao professor ensinar seu aluno a ouvir o outro, afinal é o que pouco acontece em nossos dias e todos nós gostamos de receber atenção:
“Todo mundo gosta de Tamina. Porque ela sabe ouvir o que lhe contam. Mas será que ela ouve mesmo?Não sei... O que conta é que ela não interrompe a fala. Vocês sabem o que acontece quando duas pessoas falam. Uma fala e a outra lhe corta a palavra:’ é exatamente como eu, eu...’, e começa a falar de si até que a primeira consiga por sua vez cortar:’ é exatamente como eu, eu...’. esta frase ‘é exatamente como eu...’ parece ser uma maneira de continuar a reflexão do outro, mas é um engodo. È uma revolta brutal contra uma violência brutal: um esforço para libertar o nosso ouvido do adversário. Pois toda vida do homem entre os seus semelhantes nada mais é do que um combate para se apossar do ouvido do outro...” (pág.28)
Educar é saber e ensinar a ouvir, não apenas tomar posse do ouvido do aluno, falar e falar e vice versa. Óbvio que em uma sala de aula quem deveria ouvir mais seria o professor, mas o aluno deve aprender a respeitar a opinião dos outros, o que acarreta em saber ouvir. Começando a aprender a ouvir seus colegas e suas opiniões, aprendendo que o mundo não é individualista e que não somos o centro de tudo. Todos precisam falar e todos precisam ouvir, é assim que se forma uma sociedade justa em que todos se ajudam e colaboram com seu próximo.
Para ser educador, é necessário estar sempre atento as diferenças e característica de cada aluno. Se lecionarmos em uma escola da periferia por exemplo, onde os alunos encontram-se na maioria das vezes desmotivados, sem perspectiva. Cabe ao professor, dar-lhes esta perspectiva de um futuro digno, ajudá-los a transformarem-se em cidadãos melhores, mesmo na precária situação em que vivem.
Portanto, é extremamente relevante o papel social que o professor tem a desempenhar e perceber que existem em suas mãos milhares de vidas que podem tomar um rumo muito melhor se bem auxiliados. E mesmo quando a vida do educador apresentar momentos que lhe façam pensar em desistir, que ele tenha forças e seja otimista e acredite que um dia a sociedade será mais justa, humana, com igualdade para todos, amor e respeito ao seu próximo.
PROFESSOR
Cada ser humano tem uma vocação
Não importa que nossa vida seja longa
O que importa é que ela seja útil.
Aquilo que somos também não importa,
Mas como somos.
Não importa o que estamos fazendo,
Mas como o fazemos, isto sim importa.
Não importa desfrutar,
Mas sim repartir.

Não importa ser amado,
Mas ser a benção para os outros.

Não importa aquilo que parecemos ser,
Mas sim aquilo que somos.

Não importa que saibamos muita coisa,
Mas sim, que ponhamos em prática
Aquilo que sabemos.

Vocação é isto:
Colocar o nosso tijolo,
Ainda que modesto,
Na construção de um mundo
Mais humano, mais feliz!...
(Autor Desconhecido)

Bibliografia
ALVES, Rubem. ”Educação dos sentidos e mais”. Campinas, SP:Verus Editora, 2005.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

O amor acaba

O amor acaba

Paulo Mendes Campos


O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.



Texto extraído do livro "13 melhores contos de amor da literatura brasileira". Strausz, Rosa Amanda (org.). Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

A Mulher Negra Guerreira está morta

Para refletir...

A Mulher Negra Guerreira está morta...

Há poucas horas, enquanto lutava com a realidade de ser humana e não um mito, a mulher negra guerreira faleceu.
Fontes médicas afirmam que ela morreu de causas naturais, mas os que a conheceram sabem que ela morreu por ficar em silêncio quando deveria ter gritado; por sorrir quando deveria ter liberado sua fúria; e por esconder sua doença para não incomodar a ninguém com sua dor.
Ela morreu de overdose de gente em suas costas quando não tinha energia nem para si mesma.
Ela morreu de tanto amar homens que não amavam a eles próprios e que a única coisa que lhe davam em troca era um reflexo distorcido.
Ela morreu por criar filhos sozinha e por não poder fazer todo o serviço.
Ela morreu por causa das mentiras sobre a vida, os homens e racismos que sua avó contou à sua mãe e sua mãe lhe contou.
Ela morreu por ser sexualmente molestada quando criança e por ter que carregar a verdade consigo pelo resto da vida, trocando sempre a humilhação por culpa.
Ela morreu de tanto ser espancada por alguém que dizia amá-la, e ela permitia que o espancamento continuasse para mostrar que também amava esse alguém.
Ela morreu de asfixia, cuspindo sangue por causa dos segredos que guardava tentando abafá-los em vez de se permitir a crise de nervos que lhe era de direito – mas que só as mulheres brancas podem se dar ao luxo de ter.
Ela morreu de tanto ser responsável, porque ela era o último degrau de uma escada sem apoios e não havia ninguém que pudesse ampará-la.
A mulher negra guerreira está morta. Morreu por causa dos tantos partos de crianças que ela na verdade nunca quis, mas que a moral estranguladora dos que a cercam obrigou-a a ter.
Ela morreu por ter sido mãe aos 15, avó aos 30 e um antepassado aos 45.
Ela morreu por ter sido derrubada e tiranizada por mulheres não-evoluídas que se diziam sisters, companheiras.
Ela morreu por fingir que a vida que levava no século XXI era um momento Kodak e não um pesadelo pós-escravidão.
Ela morreu por tolerar qualquer zé mané só para ter um homem em casa.
Ela morreu por se relacionar com homens brancos,e acreditar que era amor.
Ela morreu por falta de orgasmos, porque nunca soube de suas reais capacidades.
Ela morreu por causa dos joelhos dolorosamente comprimidos um contra o outro, porque respeito nunca fez parte das preliminares sexuais que lhe eram impostas. Ela morreu por causa da solidão nas salas de parto e abandono nas clínicas de aborto.
Ela morreu por causa da comoção nos tribunais onde sentava-se, sozinha, vendo seus filhos serem legalmente linchados.
Ela morreu nos banheiros com as veias irreversivelmente abertas pelo descaso geral e pelo ódio que sentia por si mesma.
Ela teve morte cerebral combatendo a vida, o racismo, os homens, enquanto seu corpo era arrastado para um matadouro humano para ser espiritualmente mutilado.
E algumas vezes quando se recusou a morrer, quando apenas se recusou a entregar os pontos, ela foi assassinada pelas imagens fatais de cabelos loiros, olhos azuis e bundas chapadas, quando foi rejeitada pelos Pelés, Djavans e Ronaldinhos da vida.
Às vezes, ela era arrastada para a morte pelo racismo e pelo sexismo, executada pela ignorância hi-tech enquanto carregava a família na barriga, a comunidade na cabeça, e a raça nas costas.
A escandalosa mulher guerreira sem voz está morta!!!!!!
Ou Ela Está Viva, E Se Mexendo????? ?
Eu sei que eu ainda estou aqui.
E você? Está se sentindo viva?
Irmã .. cuide-se!

Asé

(tradução do texto The Strong Black Woman is Dead, de autora desconhecida)